TOMAZ DE FIGUEIREDO

figuras «vivas»

 

A Tia Mariana

 A Tia Mariana se fosse minha Mãe não podia ser mais minha amiga. Hás-de ver-lhe o retrato, de leque e trancelim, muito apertada numa jaquetinha que não faz uma ruga sequer... Uma tia solteira e sem outros sobrinhos, ainda por cima, bem vez que não é nada o mesmo que uma tia casada... Sabes que a história de que mais gostei, em dias de minha vida, contou-ma ela, em muito pequenino? Contou-me ao ouvido, baixinho, para eu adormecer....

Coitadinha, tão ingénua! E olha, doutra vez, também pequenote, estava eu aqui só com ela e com minha mãe. Um dia apareci constipado, e, para que não me descobrisse e resfriasse de noite, ora imagina o que ela inventou! Pois deitar-me numa cama que parece uma sala, e deitou-me. Depois, deitaram-se ambas sobre a minha roupa, cada qual do seu lado, a outra roupa acima delas. Ainda hoje parece que sinto a abafação das duas a fazerem peso, a não me deixarem mexer.

in A Toca do Lobo

 

 

A Maria Velha
A minha Maria Velha
(era a Maria Rodrigues)
que mais de sessenta anos
serviu a minha família
e morreu com uns oitenta
(nem ela ao certo sabia):
A Maria de Casares,
como o povo a conhecia,
do nome da Casa onde
por da família era tida,
há-de vir em qualquer noite
visitar o seu menino.
Lá do seu lugar no Céu,
deixando lá seu palmito,
seu resplendor e seu manto
ao tento das outras virgens,
ao quintal de muro branco
onde o seu corpo, inteirinho,
(porque não, se morreu santa?)
espera o tornar à vida,
o seu corpo há-de ir buscar
para me aparecer tão viva
como quando (há tantos anos!)
ao seu colo me trazia,
como quando (e nunca mais!)
no fogão me assava pinhas,
e, sabendo-me biqueiro,
arroz de açafrão fazia.
Ela sabe (de lá vê-se!)
que o menino vive triste,
que o coração lhe trataram
pior do que uma rodilha.
De sabê-lo, nem no Céu
pode bem ter alegria,
ou não fosse ela (se o era!)
tão minha tão minha amiga.
...........................................
Virá como a amortalharam,
com a saia de merino,
a jaqueta de veludo,
o avental de vidrilhos,
o lenço preto dos lutos
e as chinelas de verniz:
virá, tenteando o andar
e a querer, sem poder, sorrir.
Logo então, pé-ante-pé,
chegará junto de mim
(as lágrimas, pelas rugas,
descer-lhe-ão, fugitivas)
e dirá, cheia de pena:
- “Então que foi, que foi isso?”
Eu erguerei a cabeça
do travesseiro de picos
- “Maria, que foi, perguntas?
Nem sei o que terá sido.
Estás farta de saber,
quando não, porque virias...
O que foi não no entendo:
só fui nado pra sentir.”
E ela, dando à cabeça,
trocar-me-há, compreensiva,
puxando-me pela mão
e engolindo um suspiro :
- “E se o menino viesse,
agora mesmo, comigo?..."

in Guitarra, Poesia I

Maria Velha é uma personagem transversal na obra de Tomaz de Figueiredo transposta pelo escritor sob diversos nomes próprios.

A Ermelinda (para os caseiros a Sêra Belindra, a Se Belina para o filho do Corujeira, que voltara do Brasil de mãos espanadas, canino de ouro americano e falar “à política”)... tombo vivo de uma família...

in A Toca do Lobo

A Florinda, que me viu nascer, e que, em paga, eu hei-de ver morrer, nem que volte dos antípodas a esta casa que mais parece dela que minha... Tutelar, encarnava a Casa, por a ter visto antes de todos, por ser a ponte para uns Antigos que a tia Henriqueta nem chegara a conhecer.

in Noite das Oliveiras

 

 

O Mata–Leões

Que patusco o Manuel Cerqueira, de seu nome todo Manuel António Cerqueira, e para a freguesia o Manuel do Félix, filho que era de um Félix!... Umas suissinhas ralas “sementadas em dias de vento” como ele dizia... Um esguicho de um cano (a minha canhoeira!), quase da altura dele e que as mais das vezes negava fogo, com uma complicação de cabacinhas e de corninhos à cinta, às claras com o cacifro do furão...

Volta e meia, punha-se a contar farsadas, partidas e chalaças do monte... e sessões que tais de Luz e Sombra estudadas para quando pelo S. Miguel, o senhor compadre a mailo menino viessem, já que tanto por elas se pelavam...

A graça que o pai lhe achava! Chamava-lhe o Mata-Leões... Ah!, que, se houvéreis conhecido esse Mata-Leões, conheceríeis, de carne e osso, um dos guerreiros do Hermínio que imaginosas representam as gravuras: carão entalhado à goiva e assado pelos frios do alto, manápolas de rachador e olhos de peneireiro: troglodita do século XX abrigado no Inverno pelo varino castanho, que o vento lhe enrodilhava no corpo como o pano de um guião.”

in A Toca do Lobo

 

 

 

Zé Cesteiro

Porventura que o Zé Cesteiro havia sido o mais vivo aparelho de imaginar andado sob a rosa do Sol... Usava o Zé botas de francês, e botas de francês chamava o rapazio às do pedinte estrangeiro que aportava de passagem...; botas cambadas e tombeadas, até calhava uma ser preta e outra amarela. Também usava um porrete maneirinho, só até ao ponto do sovaco, aperfeiçoado por um prego no toco: parente próximo do canivete de trinta aplicações, na mão do proprietário e inventor...

O Zé, só ouvido! Que Miguel Ângelo burlesco!

... De terra em terra, por fraguedos e vales, raia seca fora, Galiza fora, Astúrias fora, Navarra fora, bem era de palpitar que o Zé, pelas cousas de que dava conta, devia, se não passado, ao menos ter chegado aos Pirinéus. Volta e meia, levava sumiço: rapsodo moderno a ouvir e contar liórnias... Que trapalhão de génio!

in Uma Noite na Toca do Lobo