TOMAZ DE FIGUEIREDO

comentários críticos

 

“Dotado da sua própria linguagem, registada com o orgulho e a sensualidade de quem defende um país ameaçado por aquilo que chamaríamos hoje «globalização», o território do lobo ascende aos planos da maravilha, de alguma forma inacessível a quem não dispuser de santo e de senha. ... O texto de Tomaz de Figueiredo, e sobretudo aquele que traça o ciclo da Toca, organiza-se num pequeno tratado de antropologia cultural,... conseguido com o efeito caldeador que possibilita a persistência e a transmissão das marcas culturais. Se aqui reside algo da legitimação do labéu de regionalista com que ao longo da sua vida foi fustigado, ..., o nosso romancista, valerá a pena indagar de que particularismos se edifica a grande literatura, e de que generalizações se fabrica a literatura menor.”

Mário Cláudio in A Toca do Lobo, I.N.-Casa da Moeda, Lisboa 2005

 

 

 
 

“... o destaque vai logo para A Rapariga da Lorena, construída em moldes clássicos, e onde o então problema da Argélia, ..., serve de tema principal, com roupagem medieva, atraindo companhias teatrais, como a todo poderosa Amélia Rey Collaço-Robles Monteiro...”. “Acusação violenta, indignada à política francesa na Argélia, incluindo momentos de extraordinária riqueza épica, a peça faria boa camaradagem com O Livro de Cristóvão Colombo, de Paul Claudel..."

António Manuel Couto Viana in Teatro, I.N.-Casa da Moeda, Lisboa 2003 e Poetas Minhotos, Poetas do Minho, Viana do Castelo, Câmara Municipal 2003

 

 

 

“Esta maneira de falar da água tem uma longa tradição: vem de Os Lusíadas, daquelas estrofes onde Camões presta homenagem aos versos mais rumorosos da Odisseia. Nos contos de Tomaz de Figueiredo, a água é, porém, mais do que uma simples reminiscência clássica: constitui um dos elementos definidores do jardim da felicidade.”

Prof. António Manuel Ferreira in «Brotéria», Outubro 2003

 

 

 

“A literatura, perdido o seu carácter específico de actividade espiritual era, para ele, uma maneira essencial e quase biológica de ser. A literatura circulava-lhe no sangue, como uma forma de respiração, com que ele aspirava, em haustos gulosos, as paisagens e a vida.”

Domingos Monteiro, «Uma noite com Tomaz de Figueiredo» in Diário de Notícias, Julho 1970

 

 

 

“Tinha alma de escritor o demo do Tomaz.... Pelava-se por tudo o que fosse passado. Por vontade dele, suponho que ainda haveria capitães-mores e outros anacronismos. Era esse o filão da sua poesia...”

João de Araújo Correia, «Passou por aqui» in Pó Levantado, Régua 1974

 

 

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“Era um palrador infatigável, humoral, sem papas na língua, como eu gosto, às vezes de uma melancolia azeda. Não poupava ídolos paspalhões da Hora.”

Luiz Pacheco, «Mestre Tomaz» in Textos do Barro, Contraponto, Lisboa 1982

 

 

 

“Tomaz de Figueiredo era indispensável em Lisboa, era indispensável nas suas três ou quatro tertúlias. Tinha um desprezo soberano por quem escrevia, pela maior parte dos que escreviam, e com razão. Escrevia-se, como de costume, muito mal. Sobretudo muito liso (sem segundo sentido) que era a maneira neorealista de escrever.”

Alexandre O’Neil, in JL, Lisboa, Setembro, 1984

 

 

   
 

“... Não obstante a diversidade dos géneros, não obstante a pureza específica de cada um deles, em todas as obras de Tomaz de Figueiredo se manifesta, de modo unitário, a sua complexa personalidade, que oscila constantemente entre o riso e as lágrimas, a chacota e o êxtase, a revindicta e a ternura. Não há, decerto, na literatura portuguesa contemporânea, exemplos de tão satírica truculência como aqueles que se encontram em muitas páginas do Nó Cego, de A Gata Borralheira ou do Dom Tanas de Barbatanas; mas tão pouco se vislumbram, em contrapartida, voos líricos de mais transbordante sensibilidade que os voos que atravessam os céus familiares de A Toca do Lobo. Religioso evocador do passado, em verso e prosa grande poeta da memória ...”

David Mourão-Ferreira in Hospital de Letras

 

 

 

“Tomaz de Figueiredo é um autor mal amado, o que em grande parte se deverá à sua intransigência para com a mediocridade e a uma certa agressividade sem papas na língua por que era conhecido nos meios literários. É também um grande poeta quase desconhecido, a despeito da sua gigantesca produção em verso, em grande parte inédita e só recentemente publicada na IN-CM em dois grossos volumes. O poema Na Toca do Lobo reelabora sinteticamente a temática de uma memória poderosamente evocativa da vida num meio rural, de uma afectividade frustrada e de uma luta com os fantasmas familiares que povoam uma solidão desesperada, afinal os ingredientes principais de A Toca do Lobo, o romance mais justamente célebre do autor e a que ele chamou um rio de memória em carne viva. O mesmo com outros poemas seus, como os do ciclo Viagens no Meu Reino e, muito em especial, com o Posfácio à Toca do Lobo, porventura a mais extraordinária evocação de um pai de toda a poesia portuguesa.”

Vasco Graça Moura in Diário de Notícias, «Memórias dos Dias na Poesia Portuguesa», 2005

 

 

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“A Toca do Lobo é não só a obra de um grande prosador (David Mourão Ferreira chamou-lhe, e a meu ver com toda a razão, um dos a maiores deste século) mas também um dos romances portugueses em que se concilia a rusticidade ambiente - e seus episódios paradigmáticos, bem diferenciados - com a opulência que não exclui rigor, de um estilo puríssimo, pessoal, inconfundível, como era o de Tomaz de Figueiredo.”

Luiz Forjaz Trigueiros in RDP, Programa Música e Factos, Junho 1981

 

 

 

“Digo-o sem o mais pequeno receio, mas também sem a mais leve obrigação: apesar de tudo o que se queira ou possa, a obra escrita de Tomaz de Figueiredo é um dos picos da literatura portuguesa do século XX. Valha a verdade que isto nada quer dizer, mas, ainda assim, alerta para a dificuldade de nos dias de hoje se encontrarem, na mesma língua, mais do que um, dois ou três escritores com o seu estalão. Disse que a sua obra é cume da literatura portuguesa do século XX. Não tanto assim, calhando. É preferível deixar para outros a literatura e o seu pequeno tráfico de golpes baixos e dar-lhe a ele, ao que viveu solitário e selvagem numa toca de lobo, a aura poética do desastre, esse nimbo de luz que só uma aventura espiritual vivida através das palavras pode criar.”

Prof. António Cândido Franco in Poesia I, IN-CM, Lisboa 2003

 

 

   
 

“Releio Tomaz de Figueiredo e impõe-se-me, de novo, a ideia de que havia (há) neste homem sacudido, temperamental e repentino, que sempre rastreou a vigência de valores e de princípios - a honra da escrita. Isso mesmo: a honra da escrita. A conjugação de claridade e de profundidade, a percepção de que a arte literária é a conjugação de vozes, o exercício público da privacidade da memória - e o gosto e a sabedoria do idioma. O grande autor de Uma Noite na Toca do Lobo sabia, como poucos, que a literatura é conforme a um diálogo emprestado: interminável conversação entre sociedade e individualidade, entre as regras concordes e aquelas que se descobrem para constituírem a singularidade e o sopro pessoal. Mas o homem era infenso à vulgaridade, ao plágio, à trafulhice, e não se coibiu de publicamente escarmentar aquele que infringia a ética do ofício e chamava de seu o que o outrem pertencia... Foi diverso, oposto, diferente, insubordinado, irreverente, indomável. Foi um dos maiores escritores portugueses de sempre.”

Baptista-Bastos in Novelas e Contos I, IN-CM, Lisboa 2005

 

 

 

“Estou a reler alguns livros de Tomaz de Figueiredo. Há muito que deixara de frequentar o grande autor de Tiros de Espingarda, novelas absolutamente fabulosas (em todos os sentidos) e sobre as quais, tempos remotos, eu falava com o meu velho companheiro de tudo, Fernando Lopes, na eventualidade de se fazer um filme. Voltei a Tomaz de Figueiredo levado por esse secreto impulso que sempre me impeliu a Portugal nos textos dos nossos maiores, quando Portugal é atirado para o vórtice.”

Baptista-Bastos in Jornal de Negócios, Lisboa, Janeiro, 2005

 

 

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“Também na literatura mais vale cair em graça do que ser engraçado. Tomaz de Figueiredo..., um dos grandes ficcionistas e prosadores da língua portuguesa, continua a ser um ilustre desconhecido, um vago nome a que alguns ainda assim associam um título: A Toca do Lobo. As histórias e dicionários da literatura portuguesa, as enciclopédias, se não omitem o seu nome, dão-lhe, com raras excepções, um espaço reduzido, em desproporção com o reservado a escritores menores, promovidos pelos media e por motivos extraliterários. E as universidades, que deviam ser formadoras, alinham com as modas, são politicamente correctas, dão o seu aval a teses sobre escritores-de-quem-se-fala, ignorando (deliberadamente!) autores não impostos pelo marketing. Como é que a ditadura cultural semialfabeta pode tolerar um escritor como Tomaz de Figueiredo, que não se contenta de um português básico, mas tem uma prosa rica, incansávelmente lavrada! Lavrante de palavras, eis um título que convém ao nosso escritor, e por isso estudava e trabalhava, com exemplar devoção, a língua portuguesa. Tomaz de Figueiredo é um escritor mal-amado porque não faz concessões ao público, nem na linguagem nem nos temas, não traja pelo último figurino, negando-se a praticar uma literatura comercial em que o único móbil é o dinheiro.”

João Bigotte Chorão in Nó Cego, IN-CM, Lisboa, 2002

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Não se pense, apressada e redutoramente, que, perante a obra de Tomaz de Figueiredo, estarmos apenas perante um escritor regional ou uma literatura regionalista. Bem pelo contrário: quanto mais genuinamente local e quanto mais intrinsecamente humana, mais universal se torna essa obra. Não lembrava Miguel Torga que o universal é o local sem paredes? Isto aplica-se intrinsecamente a Tomaz de Figueiredo, escritor polígrafo e exigente, que não pactuava com facilitismos nem com modismos; muito menos com compadrios e autopropagandas.

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“Trata-se de uma obra que nos aparece polarizada entre o pícaro e o elegíaco, entre a mais satírica truculência e a mais lírica sensibilidade, ora usando o chicote da sátira contundente e impiedosa, não poupando no retrato e na denúncia de mazelas privadas e públicas; ora se mostrando um escritor perpassado de nostálgica saudade e de comovente ternura”,…”obra singularizada por uma escrita de múltiplos registos,…, entrelaçando um temperamento romântico com uma vigiada disciplina clássica,…, bem como pela condição do precioso castiço linguajar do povo.” 

                                                                                                    José Cândido Oliveira Martins

                                                  Universidade Católica, Braga 

 

   
 

Dicionário Falado reúne palavras confinadas a um meio popular e regional,…, palavras e locuções pitorescas, insólitas, inabituais, desusadas, ou se quisermos, tipicidades ideomáticas inencontráveis na cidade. Trata-se de um precioso repositório que regista vocabulário e usos da língua de outrora e a caminho da extinção. A elaboração da obra – e a teimosia em publicá-la – correspondeu à persistente afirmação de uma irredutível convicção (quase a fazer de Dicionário Falado um texto, para além de tudo o mais, de pendor pedagógico e catequético ) : a convicção fervorosa e doutrinária de que o valor da língua, que tende a confundir-se com o valor literário, se afere, ainda que ao arrepio de alguma gramática estranha e irregular  (a sintaxe discordante, por exemplo), pelos seus usos populares. No povo rural e agreste floresceria a língua pura…e desafectada, vale dizer, a boa língua. As aldeias, e não tanto os literatos, seriam um nicho de bom português.

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Do que ficou dito, emerge a ideia central de que o povo ensina língua a um escritor – a um escritor que detém um domínio extraordinário da língua – e não um linguista. O mesmo é dizer que seria difícil não ver no apreço que Tomaz de Figueiredo sente nos humildes que lhe oferecem como que o fulgor da língua em estado puro (seja o que isso for) uma lição de criação estética que o romancista e contista, discípulo empenhado, saberá transpor para os seus textos, conforme reconhecerá todo o leitor que os frequente” 

                                                                              Sergio Guimarães de Sousa

                                                                                    Universidade do Minho, Braga

 

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