TOMAZ DE FIGUEIREDO

Bravães - Quinta da Cheira

 

Bravães - a Quinta da Cheira, em Bravães (Ponte da Barca), é, para Tomaz de Figueiredo, a sua Toca do Lobo, e, também, cenário de fundo de Uma Noite na Toca do Lobo.

Acima do portão, na verga quase vestida pela hereira que já amortalhara a pedra heráldica, a valer de baetão que a amantasse nos lutos, ainda lá se lia uma data, 1654, avivada pelo caseiro, por mimo, no tempo da poda, a riscos de caco.

Embora de teimoso castanho, abanados por entalões de carretos, chicoteados e entranhados por chuvas de invernos e invernos, os batentes do portão, laços da corrosão das cunhas cinco dos seis chumbadouros, havia muito que não jogavam nos gonzos. Franqueados com abraços, o areão e o saimbro dos enchurros caldeavam-nos à terra como se houvessem botado raízes, reverdecisos.

Portão e caminho até ao terreiro, sob a latada, quisera o dono continuassem escalavrados como no tempo ido, em que só ali vinha, e nem sempre, quando era pelas vindimas e varejadas de castanhas, lá raro pela feitura do azeite.

in A Toca do Lobo

a filha Maria Antónia, na Pégadinha, em 1951

A Quinta da Cheira já não pertence aos familiares do escritor, por motivos que os mesmos muito lamentam, tanto mais que contrários aos seus permanentes desejos. A Quinta da Cheira é, por esse motivo, o único imóvel do escritor que se não encontra protegido pelo carinho preserverante que actualmente rodeia o seu restante espólio. Os riscos de"nacionalização" existentes durante o tristemente denominado "PREC", com, designadamente, o afugentamento dos caseiros que, usufruindo da totalidade dos frutos da Quinta, cuidavam do amanho respectivo, converteram aqueles seus poucos hectares em "terra improdutiva", e, portanto, integrável na "reforma agrária nortenha". Foi, por isso, alienada a preço pouco menos que  estatístico. O seu novo proprietário, emigrante no Canada, alterou totalmente a traça original da casa, "modernizando-a" e alienando ou destruindo as suas marcas identificadoras.

Por isso, a Quinta morreu! Nem o portão, cuja descrição inicia a Toca do Lobo, restou! Como não restou a mata, onde se acoitavam perdizes, e o velho pinheiro manso, o maior da Freguesia. Apenas subsiste o largo fronteiro, onde, devido à iniciativa de um homem culto e combativo de Ponte da Barca, foi recentemente colocada uma placa comemorativa do significado do local.

Também hoje já se não chega ao que foi a Quinta pelo velho caminho - o caminho dos moinhos - que relembra passagens da Toca do Lobo. Mas ainda é possível, muito em especial devido a um trilho pedonal propositadamente desenhado para o efeito, encontrar os velhos moinhos, tornear algo do que teria sido a Casa e chegar por fim à Capela da Senhora da Pégadinha, a cujos adros de caça muitas vezes o escritor subiu, respirou o ar e a paisagem, partilhou tiros a perdizes com os seus Zés Cesteiros - companheiros e pares pelo carácter, seus verdadeiros amigos.

Capela da Pégadinha no alto e Mosteiro de Bravães no sopé dos montes – eis dois marcos de um caminho que importa percorrer, tentando imaginar, não apenas o mundo que Tomaz de Figueiredo espelhou em dois dos seus romances, mas até o que no século XII se espraiaria por essa preciosa jóia do românico do Alto Minho.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                  

A filha Maria Antónia e a neta mais velha do escritor, Vera Maria

 

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