Tomaz de Figueiredo

CASA DE CASARES

 

 
Morro de amor pelo meu pátrio Minho,
pela vila dos Arcos, pela Casa
de Casares, onde a minha infância dorme,
onde esperei, feliz, envelhecer,
escrevendo mais livros, sempre livros,
onde cuidei morrer e, como Goethe,
pedindo luz e luz, sempre mais luz,
de janelas rasgadas sobre o Vez,
sobre a fonte que jorra da carranca,
sobre as minhas amadas laranjeiras.
Fausto, morro de amor pelos meus livros,
pelos romances que pensei, fugidos,
perdidos e sumidos, pois já não
bolem as suas almas em meu clima
de desespero, ao qual só é possível
deixar que espumem versos em cascata
e a esmo, de espontânea geração,
milagrosos, de insólito fenómeno.

in: Viagens no meu Reino

 

 

 

Thomaz Xavier d'Araújo Azevedo Cardoso

 

A CASA DA VILA

Esta casa – a Casa de Casares – foi,
após a morte de Tomaz de Figueiredo,
herdada pelo seu filho mais velho,
Tomaz Xavier. Este, anos mais tarde, 
no âmbito de transmissão a título oneroso,
deixou-a à guarda  de sua irmã
Maria Antónia e de seu cunhado

Porventura, premunitoriamente,
na obra A Túnica de Nesso,
publicada postumamente, o
escritor dirige-se nestes termos
veementes à sua filha mais velha:

                              

HOME

Ouve, olha, minha filha! Na casa que foi minha - e tem-na por sagrada! -, nessa casa aonde não tornarei, há-de o teu pai sempre morar. Nunca vendas aquela casa, se vier a tocar-te, pois o mesmo seria que venderes o teu pai. Faz lá um museu de teu pai, com os livros que tanto amou, os poetas que tanto amou - e que todos tinha na cabeça - com a colecção miguelina que ajuntou - alguma peças, únicas - com o contador que foi para Lisboa, e do qual teu bisavô fez cofre. E com as suas espingardas e pistolas, com a sua colecção de crítico de Arte, com tudo o que lhe foi universo...

 

A CONSTRUÇÃO DA CASA DE CASARES

Tomaz Xavier d’Araújo Azevedo Cardoso, nascido na Casa da Ponte, em Arcos de Valdevez, casou em 1846 com Maria Engrácia da Costa Lobo Bandeira. À data do casamento recebeu de legítima o terreno contíguo à referida Casa da Ponte, nele edificando a Casa de Casares, para onde, em 1851, vai habitar com a sua família. Na Casa de Casares nasceram 6 dos 8 filhos do casal, designadamente a m ãe do escritor, Maria da Soledade, em 1863.

Em 1901, esta contrai matrimónio com Gustavo de Araújo e Silva Figueiredo, natural de Braga, ficando o casal a residir nesta cidade cerca de um ano. Muda-se posteriormente para Arcos de Valdevez. Deste modo, Tomaz de Figueiredo, ainda de poucos meses, vem viver para Casares, casa de seus avós maternos, onde dará os primeiros passos, e vive toda a sua meninice e adolescência junto a seus pais, a suas tias solteiras e às serviçais domésticas que serviam a família com tal dedicação que, algumas delas, eram também consideradas família.

A RECUPERAÇÃO DA CASA DE CASARES

Restaurando Casares a partir de 1972, pois que se encontrava semi-arruinada, iniciou-se, em paralelo, o trabalho aliciante de tentar reunir o máximo possível do espólio do escritor – o existente na própria Casa, aquele de que os novos possuidores eram legítimos herdeiros, bem como grande parte do lote herdado pelo filho, Tomaz Xavier, que ali deliberadamente o quis depositar. Simultaneamente adquiriram-se algumas peças do espólio original, a que foi possível ter acesso. A esse conjunto foram-se acrescentando objectos e adornos de vária natureza, na sua maioria deliberadamente adquiridos nos Arcos, ao saudoso “Joaquim dos Quartéis” e na “Antiquária” da Estrada de Monção – figuras arcoenses bem conhecidas de Tomaz de Figueiredo.

Foi também reunida na Casa de Casares, não só toda a biblioteca de Tomaz de Figueiredo – o que dela conseguiu salvar-se! – mas, ainda, e porventura o mais importante na preservação da memória do escritor, todo o seu acervo literário, sejam manuscritos, correspondência, apontamentos e registos de múltipla natureza, actualmente objecto de estudo, compilação e organização.

A biblioteca, pequena mas muito seleccionada, constituída por obras adquiridas ou oferecidas, muitas das quais enriquecidas quer com dedicatórias, algumas verdadeiras peças literárias pelo conteúdo e estilo, quer com anotações críticas saídas da sua lavra mordaz. E, em lugar de muito especial relevo, não apenas edições, algumas originais, de Vieira, Bernardes e Francisco Manuel de Mello, mas também o conjunto de Poesia Portuguesa, que o escritor considerava dos mais completos, a nível particular, existentes no país. E, de algum modo como instrumento de fundo, o bem conhecido, pelos mais eruditos, «Dicionário de Morais» com os seus 12 grossos volumes, alguns dos quais anotados e completados por Tomaz de Figueiredo.

Assim, pouco a pouco, foi surgindo a actual Casa de CasaresCasa-Memória de Tomaz de Figueiredo e, ao mesmo tempo, casa viva de seus actuais familiares, casa que nada tem a ver com os estereótipos de «casa museu», ausentes de alma e cultura real, onde visitantes, muitos dos quais simples seguidores de «roteiros turísticos», são recebidos pela rotina de uns quaisquer funcionários, desinteressados e persistentes cumpridores de horários! Bem ao contrário, a Casa de Casares tem sido, e continuará a ser, cenário de iniciativas com efectivo sentido cultural e pedagógico que, progressivamente, irão extravasando o espaço contido nas suas robustas paredes de granito.

A Casa de Casares é, então, « ver» Tomaz de Figueiredo e encontrar o que ela representou no sentimento e no imaginário do escritor.

 

 

HOME
OS ADEUSES
Casa à beira do Vez - quem tem, sem ter -
onde passava noites à lareira,
jogando a bisca ou Vieira a ler,
chorando, às vezes... com a fumaceira...

Casa onde via bagos lourescer
e escrevia aos olores da laranjeira,
onde cuidou em paz vir a morrer
ao embalo da fonte cantadeira...

Casa do Amor, do Sonho e da Lembrança,
do Sempre e das Meninas Tias Velhas,
de falsos com fantasmas, cacaréus...

Casa das tropelias de criança
e que não mais há-de abrigá-lo às telhas,
Casa de Avós, perdida casa: - Adeus!
in: Poesia II, pág. 163

 

Trecho do Vez. Ao cimo a Casa de Casares

   

 

 

 

 

 

 

 

 

É interessante notar que na Casa de Casares se encontram muitos dos objectos que, fazendo parte do imaginário sentimental de Tomaz de Figueiredo, surgem, vivos, nas páginas da Toca do Lobo, da Noite na Toca do Lobo, e das Viagens no meu Reino.

 

HOME

 

   

                                                              Alguns livros antigos, v.g. 1as edições                Retratos, desenhos e caricaturas relativas a Tomaz de Figueiredo            Parte do acervo de poesia de autores

                                                              dos Sermões de Vieira                                                                                                                                                                               portugueses. Em cima colecção de

                                                                                                                                                                                                                                                                                       "memórias" de Dom Miguel

 

         

                                                                  Sala do piano. Em cima fotografias tiradas por Tomaz de Figueiredo                                               Escritório. Em cima pinturas de Neves e Sousa

A Casa de Casares, com alguma frequência, abre as suas portas a visitantes especiais,
interessados em aprofundar o seu conhecimento sobre a personalidade, a obra e os ambientes
 predilectos de Tomaz de Figueiredo.

Ninguém melhor que sua filha Maria Antónia (no centro da fotografia) para acolher tais grupos de visitantes...

 

HOME

© 2013 by Tomaz de Figueiredo. All rights reserved.