Excertos

 

Caçar, pescar, escrever nos intervalos alguma página de memórias - ferro em brasa…-, ler algum livro ou reler algum antigo: reler e reler o Padre António Vieira, seu professor de Fé e seu professor de Indignação. De mês a mês, algum capítulo mais do livro que tanto ambicionava acabar – que tinha de acabar! – sobre a lição de homem livre que através da vida e obra o excelso jesuíta legara. A leitura do Padre António Vieira levava-o a ranger os dentes, de entusiasmo e de fúria.

O tempo ido e perdido, que buscaria? Apenas o bem: o amor dos que debaixo do chão continuavam a amá-lo, mas a quem nunca poderia ouvir e beijar. O bem perdido, esse buscava.

Ora aí estava uma coisa para a qual ainda valeria a pena viver: para a música. Não fosse a vida humana tão curta, durasse aí uns duzentos anos viris, e não uns sessenta ou setenta, e muitíssimo capaz de se atirar ainda a estudar música a sério. Que, das mais das vezes, nem ele tocava qualquer peça existente. Brincava, brincava com as teclas, e, de quando em quando, parecia-lhe que saiam umas coisas nada feias, só que nem sabia escrevê-las nem compô-las. Até, em pensamento, ouvia peças que na mesma não existiam. Chegava a sonhar sinfonias e concertos, e esses, sim, tinha a certeza de serem música verdadeira, pois que vinham do espírito liberto da matéria, e criador, fonte. Mas, se acordava, ou lhe haviam já fugido, ou, se ainda retinha o tema, assemelhavam ilhéus donde não se avistasse mais terra: só água e nevoeiro ao derredor.

In A TOCA DO LOBO

Excertos seleccionados por João Bigotte Chorão


O pai, sim, não podia adormecer antes que rezasse por alma de uma data de parentes e amigos. Dizia ser como que uma obrigação de amizade e caridade em que se sentia de matar a sede a esses mortos, de os socorrer no lume do Purgatório, se ainda lá penavam. Por cada, seu Padre Nosso…e a lista ia crescendo, sem que nem um só lhe passasse…

O rio! Que rio! Estreito e rápido, encaracolava-se de carneiros, e a queda entrava nele com espuma e espalhafato, deixava de cada banda zonas mortas sob cujos ciscos e babugens, à certa, salmões e trutas espreitariam borboletas. Que rio para a pesca! Ah! batê-lo em companhia do Emílio, cada qual com sua cana, de alpercatas, como costumavam, sentindo muitas vezes a água pela cintura, nunca de botas bacalhoeiras como uns pinocas do Porto que o Emílio se gabava de ter corrido à pedra, e que tinham dado terra para feijões…

Que não houvesse morte! Enfim, que houvesse tudo, a própria morte e quanto Deus mandara, mas que fosse um mau sonho que já tantos anos houvessem caído sobre aquela noite bebida pelo tempo: que ele, Diogo, apenas do mau sonho acordasse, ainda com dezasseis para dezassete anos, ainda certo e seguro de que toda a vida a tinha por conta, ainda nisso de acreditar que a bondade e a lealdade eram virtudes normais: ainda sem cuidar que viria a ficar só, ilha de gelo a arder. Não ter ninguém! Ser só! Dias, meses e anos, o resto da vida sem uma alma! Como que séculos de solidão, acompanhado pela ideia de ter morrido antes de morrer! Ah! Porque lhe teriam entornado tanta peçonha no coração?...Ah! que nem sonhava que pudesse o mundo ser tão mau!

Grande pena era que as pessoas assim como o pai, ao menos essas, não deixassem um livro – por mal cuidado e sem toque literário que fosse – onde aos poucos tivessem ido escrevinhando, além das pequenas grandes coisas da família: nascimentos, casamentos e mortes, o curso da família, com os pormenores e até anedotas possíveis: casos que fossem presenciando ou de que ouvissem contar, casos parentes da maravilha, ou só líricos e simples. Que pequena grande História social duma nação, já ao cabo de cem anos, e, quanto mais antiga, sempre a melhor! O Tombo da Família! Seria o Tombo da família, cada uma teria o seu, e também, passados uns cem anos, todos, mais ou menos, principiariam a encadear-se.

In UMA NOITE NA TOCA DO LOBO

Excertos seleccionados por João Bigotte Chorão


Modas vinham, modas passavam – modas! Ao cabo, só havia de ficar o eterno. Escolas?! Daí a poucos anos, esse Futurismo, que a tantos fazia perder a cabeça, havia de ser um mono de museu de província, tanto como o Romantismo, como o Realismo, talvez ainda mais. Do Futurismo ficaria possivelmente algum nome, se aquele que o usara valesse, original e universal. O Futurismo devia até ser considerado menos afirmação do que negação, espécie de vassourada em ninho de pulgas. Caíssem na asneira de o tomar por afirmação, e esperassem pela pancada. Sempre eram pessoais os caminhos de cada verdadeiro artista, só ele os encontrava e só ele os podia seguir, ai dos que o imitassem. Daí a relativa fraqueza de Eça de Queiroz, grande talento, mas apenas grande talento e jamais criador. E daí a grandeza de Camilo, sempre ele, sem lições de ninguém, descobridor, nascente e nunca torneira de água encanada, servido pelo essencial poder de expressão que lhe provinha de saber português, saber da arte de escrever, sem a qual: nicles! A grandeza de Camilo estava onde só podia estar, nele próprio, em originariamente sentir, no poder do coração e dos nervos. E à parte de qualquer escola: em todas e em nenhuma, como todos os grandes de todos os tempos. Aí o segredo da abelha…

Gasto de dor, viajava quase sereno, pacificado pelo cansaço e pela aceitação do destino, essencialmente porque já não precisava de pensar. Nada havia resolvido, mas, em troca, já nada podia resolver, era como pensar depois de morto.

E saber que havia alguns que estudavam Direito sem repugnância! Não estudar, para esses, é que seria sacrifício. Acaso seriam assim por terem nascido assim, ou por estarem na época de se ser assim? Ele não haveria nascido talvez para estudar por obrigação, ao menos para estudar o enjoativo Direito, mas também reflectia que lhe perturbava o presente isso de volta e meia se virar para um passado gasto sem o ter vivido. Decerto a falta de o ter vivido lhe perturbava o presente. Sentia-se a natureza roubada, e não queria resignar-se a que fosse tarde. Era, aliás, a forma de se explicar várias infantilidades de que ele próprio era espectador, que reprovava, mas às quais não conseguia resistir.

Talvez, enfim, que por agora tinha escapado, mas provavelmente que a morte havia estado ali no quarto, hesitando se o levaria ou não. A morte devia ser uma espécie de animal de rapina, talvez um grande morcego com unhas e bico de gavião, invisível. E havia estado ali, que não podia o frio físico chegar à alma, e sentira na alma um vento escuro que só da morte.

In NÓ CEGO

Excertos seleccionados por João Bigotte Chorão


RECONSTRUÇÃO DA CIDADE

Tentado, hesitava: tanto o ânimo lhe caía como o ar da manhã lhe renovava o peito. E relia a carta do amigo, a desinquietá-lo. Despegasse, e afoito, despegasse do buraco onde se metera de braços caídos, viesse ao menos por meia dúzia de horas até Coimbra, a despedir-se da Coimbra que nunca por nunca tornaria a ver, a aproveitar o resto dessa Coimbra por onde muito haviam cavalado e assobiado, por onde haviam desafiado as estrelas e a vida. Pronto, não iria. Caíra-lhe mais fundo o coração na dor que uma pedra no mar. Mais fundo que uma pedra no mar…e a ideia e vista de mar sugeriam-lhe outras imagens e comparanças da morte em que se via. Continuasse pairando o navio abalroado – não muito velho, mas abalroado – por ali e de vontade apodrecesse na água que o vira nascer. Bastante vendaval e mar traidor afrontara já. Agora, de mastros despidos pelo céu dentro, apenas pretendia sentir que ainda havia céu. E, em distante dia, ou no seguinte, descesse confiado a ser inteiro do «para sempre». Todavia, tentado, que principiavam os salgueiros florindo, já o cheiro da Primavera rompia pelo quarto, e o sol, e um canto de rapariga. Tão luminoso, o horizonte! Que horizonte a chegar ao fim! E também cheirava aos primeiros pólenes. E o mar, sem grandes bravezas, nem espumava nem lutava com os penedos. Apetecia era um barco à vela e seguir nele, sem destino e sem horário, dormindo à lua, livre de sofrer e de pensar o sofrer, liberto do usual e cruel vário de sonhos, verdadeiros todos na essência, diabólicos de maldade, glosas possíveis do real, arestas do mesmo poliedro. Cada sonho, por cada noite, e ferido pela manhã pelo sonhado, acrescido ao real…Quem tais sonhos guardasse e os escrevera! Nem a mais destravada imaginação os conceberia: processo de uma angustia. Tentado, mas não ia. Dorido como se lhe houvessem batido na alma. Deixava cair os braços como arvores cortadas. Que o imaginar se fosse, que mais desesperançado e pobre o deixasse do que um pobre de pedir. Neutro que nem as pedras, já. E que as pedras de rua, só para os outros calcarem e os animais urinarem. «Agora já só presto para morrer!» Adaptava-se, no entanto, o princípio cartesiano: «Sofro, logo vivo…» Despegar até Coimbra? Demais, para ver ruínas?! Ah! Pelo que, ao invés de tanto sol a passar a janela, pelo que não ventaria antes de Inverno bem feio, e pelo que, ao contrário da rapariga, não ouviria a ronca do farol, e ondas malhando, e abibes chorando?... E também pelo que, em vez de arrefecido, havia de sentir ainda quente o sangue, desesperado o sangue?... E era quase a precisão física de atirar as mãos a uma viga de ferro e de a vergar e torcer, como, por igual, a precisão de encontrar uma alma e de lhe pedir: «Acompanha-me!»

E fora, afinal, que o determinava, repentina, a ideia de abraçar o amigo, aquele amigo que, de tão lúcido e compreensivo, era, se não sedativo de dores, ao menos muito perto de irmão, e de irmão justo, sem discorrer a critérios de cantoneiro que tudo alinha e risca pelo cordel seboso. Onde teria já lido que pode ser desfigurado o dever: arma da qual os medíocres – os tão medíocres que, felicíssimos, gostam de o ser – usam e se valem para impor ao espírito que se apague e por cujo gume se desembaraçam do entusiasmo, da pureza do génio: de todos os inimigos da mediocridade, ao cabo? Onde leria que os medíocres, os secos de alma, parecem de opinião que está o dever no sacrifício das faculdades pessoais, que é um delito sujeito a castigo a personalidade, querendo forçar os que a têm a viver tal-qualmente os sem ela, como se a todos obrigasse a mesma regra? Possível que lesse isto em Madame de Stäel, nessa que não tinha nascido igual a todas as madamas.

E fôra a Coimbra, sim. Precisava daquele amigo tão raro, tão adivinho entendedor de silêncios, precisava. Refugiar-se em quem só lhe queria bem e nada lhe exigia: nem senso medido pelo senso de todos nem regularidade, comparante à de intestino saudável, à hora de abrir a repartição, nem respeito dos nulos (que até podiam acumular com malandros, desde que a malandrice os endinheirasse, pouco importava se com os dinheiros de Judas), nem que vivesse ao feitio de viver morto, fedor à parte, sem maior ambição do que a de «cumprir» e a de laçar ao pescoço gravatas de saldo, a quinze mil réis e pintadas como sardões ou como araras: de juta ou de sedalina, muito razoáveis, muito decentes, à semelhança das que usava muitíssimo boa gente, exemplar e cumpridora, quem nem por isso deixava de ser quem era. A chegada a Coimbra, o alvoroço de avistar o amigo na estação, de saltar a abraçá-lo, mal ainda estacado o comboio! Talvez que a amizade seria, sim, a única pureza da vida, mas triste que só ela o fosse. Criara Deus o homem à Sua imagem. Do homem fazia a mulher, sombra do homem. Segundo um resto das farfalhices pegadas com cuspo no liceu (lastro de calhaus que, tempo atrás de tempo, fora naturalmente despejando), eram duas quantidades iguais a uma terceira iguais entre si. Parecia, portanto, que também a mulher havia Deus feito à sua imagem. Além do homem, assim, na mesma seria a mulher capaz de amor. Além da amizade, teria Deus pretendido que houvesse igualmente o amor. Enfim, talvez que fosse a amizade a única pureza da vida, Talvez que, pelo menos, já não houvesse amor: tudo mudado e Deus nauseado. Ora o Luís era a amizade, e no olhar do Luís bem sentiu a que ponto do coração contra o coração o apertava. Daí, a abalarem pela cidade, como se as poucas horas em que por Coimbra e de braço dado passeariam valessem tempo sem fim, o resto do tempo até à morte: séculos e séculos…A teimosia da esperança, vendo bem, a resistência aos aguaceiros.

De braço dado, Coimbra fora…
- Menino, então, que queres ver?
- Tudo! Quero ver tudo!
- Tudo…o que ainda haja…
A crença de que voltar ao cenário o é, por igual, ao sentir, de que até se volvem pretos os cabelos brancos…
De braço dado, Coimbra além…
- E quando tu, mesmo aqui, e de dia, por aposta, foste ferrar um beijo numa das actrizes da Mimi Aguglia, e ela, taco a taco, to pagou com uma flor que trazia ao peito…E quando tu, também aqui, bateste em dois polícias…E quando tu, uma noite…
E quando tu…E quando tu…E quando tu…
Quase ia o tempo a voltar.
- Olha, aqui era a loja do Crespo, a do incêndio…
Como se, de súbito, e próximo de amanhecer, e trinta anos antes, ardia-lhes na memória, viam-no, o incêndio alucinador.
Iam os sinos assustando a noite e estremunhando as pombas da torre de Santa Cruz. Sinos a rebate e gritos, patadas de cavalo e cornetas, cabeleiras de lume pelos ares…
Atiravam do quarto andar um menino de mama e quase nu, gordinho e chorando, que alguém aparava e embrulhava num sobretudo esverdeado. Em seguida atirava-se a mãe, que por instantes parava escanchada na varanda do primeiro andar, que por fim caía para dentro e salvavam. Breve aluía tudo, morriam na loja
salvadores de boa tenção e ratoneiros de charutos, de água-de-colónia e de lápis.
Já estavam, porém, no dia seguinte. Já se alinhava no passeio uma dezena de carvões humanos, torcidos. Já só, em papa, fumegavam caliças e entulho, e do rescaldo traziam os bombeiros perto de uma escultura de ébano:
ancas adolescentes, seios adolescentes, mal defendidos pelos punhos, curvas doces: a criadinha mal queimada. Passavam a estar trinta anos depois, e ruços, e abanados pelo ventar da vida. E nem a própria torre de Santa Cruz já existia, rachada, esboroada pelos séculos e pelo desamor, varrida pressurosamente pelos serviços municipais, cumpridores e solícitos.
As pombas, essas…
E os cacos, nem os cacos dos sinos: derretidos e remoldados em sinetas de voz diferente, não solene mas de fífia, machos passados a fêmeas…
E barbudo já, o menino, já naturalmente com outros meninos como ele, quando vinha de um quarto andar cair num sobretudo esverdeado, que humedecia…

Assim o dia correra, perseguida por aquela Coimbra a alma antiga.
Bulhenta de automóveis, a Baixa, e avermelhada pelo chique dos letreiros luminosos.
- Outra vez até à Alta?...
- Espera. A que horas tens o comboio? Ás três e meia, acho que é…
- Ás três e não sei quê. Ainda há tempo. E…que não houvesse…O que talvez haja ainda em Coimbra é hotéis, por maus que sejam…Vim, e desde que vim estou aqui.
«Sedes, sei a que ponto posso aguentá-las. Que tem sido a minha vida mais que sede? Mas, quando bebo, é quanto precise. Ora traz-me aqui a actriz de que falaste, e a ver se me atrevo ou não a roubar-lhe um beijo! Ora traz-me aqui dois polícias que se façam de finos comigo…A sede dos que nascem para a sede é assim…E eu sou eu…Se for preciso, ainda sou eu…»
Na Alta lhe ficara o coração, entranhado naquelas pedras.
E outra vez até à Alta, até onde bracejara o chorão do Largo da Feira: por lá, por entre escombros, visionando as cidades bombardeadas e desoladas pela guerra, pelas guerras: Coventry, já antes Guernica…
Passavam por edifícios novos, rectagulares e frios como fábricas. Depois davam num ponto incerto.
- Sabes, agora, onde estás?
- Olha que não, nem sei.
- Onde era o Arco do Bispo…
- Onde era o Arco do Bispo? Já nem havia o Arco do Bispo?!
-Já não, o Arco do Bispo. E o da Traição também não. E também não a Torre de Menagem.
Palmilhado tudo aquilo já de dia, palmilhado o Penedo da Saudade e a estrada dos Olivais, o amigo quebrava.
- Cansado, a sentir-me cansado…E se nós nos sentássemos?
- Eu cá nunca me canso. Mas sentemos, se queres.
Fisicamente, sim (e ainda mal), pouco se diferençaria dos vinte anos. E ainda o mesmo ímpeto combatedor, que se desesperava de só encontrar o vazio, o mole dos que apenas arremetem de longe e do vago, muitíssimo bem educados, elegantemente pulhas.
O amigo, cansado, tonto da soalheira do dia.
Foram sentar-se nas escaleiras de São João de Almedina, assim familiares como dantes, desprendidos, fincando os cotovelos na pedra e estendendo as pernas.
Surgiu breve um polícia, que empancou a estudá-los, desconfiado e de pistola.
- Não queres ver, oro não queres tu ver?...
Sorria.
Estratégico, o polícia aproximava-se, todo cautelas, tossindo grosso, dando a entender ferocidade.
- Noutros tempos, ferravas-lhe meia dúzia de estalos…
- E apreendia-lhe o boné, para recordação…
O amigo reconsiderava. De facto, noutros tempos, aquilo nem podia dar-se. Qual o polícia que se espantaria de ver dois sujeitos sentados no degrau duma igreja, conversando e fumando, gozando o fresco e as estrelas? E, quando muito, se entendesse que devia intervir, nunca o faria sem apitar e alcançar reforço de seis contra dois, pelo menos.
Descia entrementes do vago um vulto a falar só, que atropeçou e levantou a voz («Rais parta tanta pedra!»), que levou sumiço tal e qual aparecido, batendo a ferreta da bengala como o soar duma perna de pau.
Logo também no alcance dele o polícia, lento e a parecer que projectava saltos de circo, alguma fita de vaqueiros, temerária, em que figuraria de cherife.
Luzia um quarto de Lua triste, esgalhado pela ramaria duma árvore, lá no cimo onde fora o Largo do Castelo. O amigo apontava-lhe.
- Repara, que linda aquela árvore, assim contra o luar. Pois olha, olha bem para ela, despede-te, que nunca mais tornas a vê-la. E também do resto, de tudo, que a demolição continua.
Linda árvore, sim, árvore ainda de Inverno, apenas tronco e braços, mas tão galhosa e bem raiada como as linhas da mão ou as faíscas do céu.
Não ficaria, não, de tudo aquilo à volta, como das cidades bíblicas amaldiçoadas pelos profetas, pedra sobre pedra. Se já lá ia – até essa! – a Torre de Menagem, arrancada pela raiz…Comovidos, passados, era como se vissem a ruinaria da própria casa paterna.
Mas – noite de fantasmas! -, do vago donde surdira o vulto que falava só e tropicava, nascia agora uma velha muito curvada, e nunca tão exacta lhes aparecera a figuração das bruxas de outrora. Só que a velha ia rezando, claramente rezava («Padre-nosso que estais no Céu…»), pareceria que até rezava pela alma da cidade, se essa mesma alma não era, lastimosa e penada.
Não só alma, todavia, também corpo, e tanto que empurrou uma porta donde por ali ainda restava gente, e tanto que, daí a nada, pela janela de peito, luziu o trémulo dum castiçal, como lá ao fim duma gruta assombrada. Triste, nem por triste deixava de sentir-se ali bem, da companhia, e abandonava-se ao momento. Breve tomaria o comboio e a solidão, deixando Coimbra como quem deixa uma sepultura violada.
Abandonar-se ao momento, à companhia do amigo, quase irmão. E fechar os olhos, imaginar que tudo era um mau sonho, que ainda a vida o não matara nem nunca o mataria, que nada acontecera. Poupar o momento, aspirá-lo como se fosse a flor que horas depois já não havia de ter cheiro, seca: morta.
Do que fôra a padaria onde uma velhota coradinha e de bochechas ameninadas tingia de manteiga avara os pães saídos do forno: de lá, dessa providência de tresnoitados mal comidos, somente a parede fundeira, amostrando como tinha sido a repartição, onde, ao certo, as divisórias de taipa e os barrotes do solho: ainda lá um cachorro da viga mestra. E cacos de telha, à imagem de fósseis, encravados na argamassa.
Por Junho, em tempos, fogueiras à roda e por cada canto, charangas e balões de todas as cores e feitios – de violas e ventarolas, de taças e cabaças. Raparigas e estudantada cantavam e dançavam à roda, bandeirinhas farfalhavam, pediam-se e roubavam-se beijos.

				Dá cá um beijo,
				Dá cá, dá cá!
				Dá cá um beijo,
				Não sejas má!

Ali, desde Camões, tinham vivido ali a mocidade os maiores de Portugal, ali tinham beijado com escândalo dos sisudos, amado Isabelinhas: já que obrigava a sina a que sempre se renovasse em Coimbra uma Isabelinha de vinte anos e de olhos pisados, toda palidez e beijos. Em cada casa da Alta - pouco menos - se teria abrigado um coração de poeta: um grande coração.
Pois da Alta letrada só o tecto havia de restar, o das estrelas e da Lua, e esse por não poderem os engenheiros atingi-lo: alto de mais, a troçá-los. Pudesse a engenharia, que o mandava picar e mudar num de estuque, rabiosa contra a vida, patega de nascimento, e, por conseguinte: delenda Conimbriga!
Ali sentados, silenciosos, como se na escadaria dum cemitério, como se o vento falara entre ciprestes.
Ali, os dois.

Sem que a visse, não, que já a picareta a arrasara, ele via, como se a vira, a casa onde morava uma rapariga de pele escurinha e olhos muito rasgados, triste e alegre, que ambas as coisas se diria ser, de cabelo apartado ao meio, de nariz direito, de olhos que, além disso de rasgados, eram (ou pareciam) verdadeiros e leais.
Talvez já morreria, ou talvez que houvera casado, e lá de cima, no entanto, acenava-lhe e sorria.
À varanda assim imaginária, onde também via repontarem cravos, floria-lhe ainda mais verdadeiro, vencedor do tempo, o sorriso transido.
Não só aquela casa, então, e todas, tudo ali ao redor cresceu ressuscitado e eterno, a própria cabeleira do chorão ramalhou e ondulou, feminina e sedosa. Letreiros de barbearia e de lojas, via-os de fresco na cal recente, negros e apurados, floreados: tudo espanado e fresquejado como se esperasse a Alta a visita do Rei.
Ao chafariz dobravam-se moças: ia o falar da água afinando-se, mal que a bilha meava: escala diatónica a subir vagarosa até ao ponto dos agudos.
Ajudando ao prodígio, da soleira onde haviam sido os Caçadores - esse Restaurante dos Caçadores, circo de pancadarias e triclínio de ceias, de pratos em fanicos e discursos, de tachadas, pesos nas barbatanas -, de lá, real e ainda mais prodigioso, rompeu um afinar de banzas, pouco tardou que um afinar de voz e um trinado: uns estudantes fadejando. A mesma ainda - à prova de homem! - a Coimbra Lá de Cima, a do tecto de galáxias, a do caminho galaico ao Batalhador Santo que pode sempre romper da arca e rosetear o tordilho, sair a espadagar moiramas que de nome vão trocando e moiramas continuam.
Pois essa, doía-se. Pois essa.Essa de cabelo apartado a meio e de olhos tristes e alegres, que pareciam leais.Essa.Pois essa.
Acudiam-lhe os restos duma poesia ouvida ou lida em sonhos: perfeita, ao sonhá-la, mas da qual, acordado, apenas salvava a reminiscência duma quadra, e até frouxa, de pé quebrado.

				A que era de chegar, nunca chegou.
				Passaram anos, passou a vida.
				Talvez que haja caído, perdida,
				Em braços de quem não a amou.

Pois essa, de olhos que seriam leais.pois talvez essa é que fosse.
Não só ela, porém, acudia à varanda ressuscitada.
A todas as mais varandas ressuscitadas acudiam sorrisos, como em dia de festa académica, e olhos pretos e olhos verdes, e cabelos nocturnos ou de entardecer, apartados a meio ou apartados ao lado. Vencedoras do tempo, surgiam-lhe as raparigas do outro tempo, e todas de vinte anos.
Da entulheira, baças, embora bem cantasse o cantor, seguiam as guitarras e a voz protestando.

				Caminhos da minha vida
				Não serão os desta rua.
				Mas só de corpo, que a alma
				Em Coimbra continua.
Ó rua do meu amor, Onde moro, sem morar. Depois de morto que seja, Aqui hei-de vir cantar.

Pelo que seria, pelo quê, assim baça tão bela voz?
Decerto - e nem duvidava, pois tudo se volvia, de momento, a desolação e entulho -, decerto de faltarem as paredes antigas, de séculos, ensopadas de cantos de gerações, feitas, como os tonéis velhos, que apuram e vivificam o paladar do vinho, lhe dão éteres e perfume. Ou à imagem - e melhor - dos violinos muitíssimo tocados, cuja madeira se diria ganhar intrínseca e pessoal vida sonora.
Pautados e sem voo, corridos e sem volutas, sem graça e alma, filhos do falanstério inumano, bastardos da Estatística e da Régua de Calculo que não servira no Parténon, os edifícios em construcção, a Cidade Fria que vinha substituir a Académica, nem daí a mil anos - a verificar-se que podia o cimento durar mil anos - haviam de entranhar-se de música: impermeáveis e à prova de fogo, de ninhos e de melodia. Neles nem havia de semear o vento ervas e flores, tanto como nem pardais e andorinhas lhes quereriam as beiradas. Pedra artificial, o cimento, pedra que não deixara Deus na Terra: lama dura: ersatz.
Mas seguiam as guitarras protestando, e o canto. Sempre eram guitarras e fado coimbrão, milagrosos, pelo que se repetia o milagre.
Do chão esventrado a picareta e vaidade tornava o burgo antigo a renascer, de cantos de penumbra e portas meio abertas onde se davam beijos: crime pelo qual pagara, que os que a mandavam sumir-se nunca haviam beijado, e com essa fúria às costas, rabiosos, amarelos de icterícia perpétua.
Triste (ou alegre) voltava o sorriso lá da varanda. E todas, morenas ou loiras, lhe acenavam e sorriam: de cada janela e varanda lhe caía o beijo dum cravo.
Fechou os olhos, que melhor ainda via de olhos fechados, repetindo-se a quadra sonhada.

				A que era de chegar, nunca chegou.
				Passaram anos, passou a vida.
				Talvez que haja caído, perdida,
				Em braços de quem não a amou.

As dezenas e até centenas de raparigas do seu tempo de estudante, as que moravam ao redor e as que moravam longe, talvez todas caídas em braços de quem não as amara, porque nenhuma talvez caída em braços de poeta, ali no momento se lhe faziam uma só, possível e simbólica. E essa, com certeza, a que devia ter chegado. E dele os braços que a teriam amado, aqueles onde não houvera caído, perdida.
Essa a que lhe haveria sido companheira, mulher e também mãe, a que, ombro com ombro, o ajudaria e animaria a atrever-se com a vida, por mais má que a vida fosse: a companheira que da vida tudo aceitara, triunfos ou derrotas, por não querer nem saber diferençar entre os dois corações, por compreender - por amar! -, a mesma que, piedosa, acabaria por encostar-lhe as pálpebras à vidraça dos olhos e que logo ajoelharia e rezaria: «Por alma dele, Senhor!»
Com essa, agora, de visita à cidade nunca assassinada, à Coimbra sempre viva, é que viera sentar-se nas escaleiras de São João de Almedina: ambos ali de alma serena e sem maldizerem da vida. E lembrava-lhe ela a noite em que do alto duma varanda lhe atirava um cravo muito vermelho, depois de o beijar. «Lembras-te? Ainda te lembras?»
O próprio cheiro dum cravo lhe pareceu que trazia o vento, e não bafio e pojeira da cidade morta.

In VIDA DE CÃO

Novela seleccionada por Baptista-Bastos


O MURO AMARELO

A vista provara-lhe que sim e a reminiscência reafirmava-lho, teimosa, opondo-se à realidade, ao reino das coisas tangíveis e deste mundo.
Naturalmente que havia sonhado, mas deveria ter sido então sonho muito firme, tão firme que lhe ficava enclavinhado nos sentidos: ilha de manhã de nevoeiro a que jamais o pescador volta a abicar, da qual, até por vergonha, nem sequer fala, conquanto siga a retina desesperadamente fiel à nascente que lá descobriu e onde foi o primeiro e o derradeiro a matar a sede: fiel, a boca, à sua água de milagre: os ouvidos também fieis ao próprio rebentar das suas bolhinhas: sempre os beiços a memorarem o seu líquido consolo.
A reminiscência questionava: que sim, que fora verdade natural, e, em face de tanta firmeza, só angustiadamente ele perguntava se, antes e apenas, o vira nalgum daqueles romances de abusiva imaginação que a tão devaneadora tia Vitorinha nunca se fartava de reler, e entre cujas páginas deixara um jardim transido: amores-perfeitos, violetas, folhinhas de hera e de avenca..
Daí que talvez na combinação de leitura e de sonho estaria o segredo, pois muito certo era que a tia Vitorinha lhe havia pegado a romanesca propensão.
Por uma das noites sem fim da Quinta dos Corujões teria ele possivelmente lido qualquer dos livros que ela deixara - quase todos até forrados por sua mão, de veludos e gorgorões de vestidos antigos, do tempo de menina nova, de quando aprendia harpa com a boa miss Rosalind - e, então, alguma das aventuras lidas lhe ficaria a abeberar a cabeça, até finalmente sonhar.
Possivelmente assim aconteceram mas a certeza negava. Ele vira! Ele vira! «Tu viste, lá isso é que tu viste! Viste, e não te enganaste!»
Há quanto tempo não via esse muro amarelo, muito comprido e alto!
Primeiro, apenas o não via há instantes, pois que por ele acabava de passar, e, assim, ainda a colorir-lhe o lá de dentro dos olhos: amarelo e muito comprido, alto como de fortaleza. Depois, o tempo ia a medir-se pelos anos em que ficava sem tornar à Quinta dos Corujões: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete anos.
Havia conseguintemente sete anos que o tinha visto, e, porque de volta enfim aos Corujões, em cujo caminho ficava, de novo ia vê-lo, muito comprido e alto, amarelo de oca.
No cimo - quem sabia? -, rente a uma roseira de toucar que se derramava por ele abaixo.
Ah!, que seguia atento, a calcular até quando apareceria. Vira-o à esquerda, ao tornar dos Corujões, havia agora, portanto, de surgir à direita: amarelo de oca, alto e comprido, bem comparante aos que se vêem nas pinturas. E decerto lá em cima.
Ia atento, mais que atento. O breque rodava e rodava. Já pouco devia faltar.
Nisto, o breque ao portal dos Corujões.
Quê?! Já nos Corujões?! Era o portal dos Corujões?! Então aquele muro alto, muito amarelo e comprido, também de portal a meio?! Como era que o não tinha visto, se por aquelas três horas sempre com ele no pensamento?!
Bem podia perguntar ao pai ou ao cocheiro, o Farrapa, que todo o santo ano se fartavam de rodar para os Corujões, na vitória ou no breque.bem podia ter perguntado, sim, mas não quis. Tanto e tanto lhe pertencia a recordação daquele muro, tanto e tanto, e a ele só, que não perguntou. Demais que facilmente indagariam que interesse poderia ter num muro que, para eles, o mesmo era que existisse ou que não existisse, e ele é que não queria explicar.
Acaso não haveria, então, esse tal muro amarelo que, há sete anos jurava ter visto?
Havia, claro que havia. Ele é que pelo caminho se distraíra, tal e qual como se adormece, que nunca se percebe quando é. Pois, à volta dos Corujões, tomaria mais cuidado. A meio caminho, mais ou menos, lá havia o muro de aparecer, à esquerda. E, debruçada, naturalmente ao pé da roseira que se deitava por ele abaixo como as vistas dum foguete.
Ah! que nesse Outono, de há tantos anos, ele nem gozou a estada nos Corujões, donde tantas saudades supunha ter! As tentações que sentiu de se atirar no breque até à vila, dando qualquer pretexto, para ver enfim o muro amarelo! Mas tentações que matou, visto que a própria ideia do muro a queria apenas para ele, e, pela voz ou até pelo silêncio, temia denunciá-la quando saltasse para a boleia. Certo que, de feliz, a própria cara o diria. O simples e inicial assobio, o estalo do chicote - no ar, não nas éguas - indicariam quando lhe saltava o coração, de ir ver o muro amarelo.
Veio mais que vigilante, quando voltou aos Corujões. Devia estar a aparecer esse tão querido muro amarelo.
Pois de igual forma aconteceu que na ida, somente que, em vez de ao portal dos Corujões, foi ao portal da casa da vila que o breque parou.
Estava então já na vila?! Era aquele o portal da casa da vila?! Mas não podia ser! E o muro amarelo onde é que tinha ficado?! Esse muro amarelo?...
Fiel como a alma, porém, a reminiscência teimava. Pelos sete anos sem fim que andara tão longe, nunca esse muro amarelo, entrevisto a um entardecer de Outono, deixava de lhe estar nos olhos, existia adentro deles. Sete anos havia, exactamente sete, por uma tarde já meio noite, quando vinha dos Corujões com o pai e as duas irmãs, aí por obra de um minuto a vitória se detinha por baixo de um muro amarelo, muito comprido e alto. No cimo e ao pé duma roseira, bem tinha visto uma menina que só teria aí menos dois anos que ele, aí uns dezasseis, portanto. E a menina olhara-o muito, e ele olhara muito a menina, enquanto destorcia o Farrapa a correia dum tirante. Depois, recomeçara a vitória a rodar, e o Farrapa, contra o costume, talvez com pressa de chegar à casa da vila e de ver a namorada, chicoteava as éguas, e assim a menina desaparecia em menos tempo do que devia. Palerma do Farrapa!
Ah! Não! Tinha a certeza! Havia um muro amarelo, muito comprido e alto, aí a meio caminho da Quinta dos Corujões, e lá no cimo desse muro, por uma tardinha de fins de Outubro, vira uma menina toda de luto, de cabelo apartado a meio, e sem fazer nada, só a olhar para ele. Ah!, que tão certo!
Pois certo disso, nem duvidava, mas na mesma daria o contrário, já que por outra e muitas vezes, depois, andou entre a vila e os Corujões, sem que avistasse o muro amarelo, quanto mais a menina: e sempre a reparar, sempre, fiando-se mais da alma que da vista, porque tinha de haver tanto o muro como a menina.
Era que, sem dúvida, havia um muro amarelo, amarelo e muito comprido, em cima do qual, passada uma data de anos, estava uma menina muito bonita, de cabelo apartado a meio e vestida de preto: na mesma de preto, como eles, que andavam de luto pela mamã.
Vinha o pai e ele, a Tininha e a Zé, quem guiava era o Farrapa, as éguas eram baias e estreladas, a Rolinha e a Mimosa. No alto do muro estava uma menina, e ai que bonita que ela era!
Afinal, não havia muro, tão-pouco havia menina. Chegou por isso a pensar - a tal disparate chegou - se não seria de facto verdadeiro viverem-se muitas vidas, e que numa delas fôra que tinha visto uma menina ao cimo dum muro amarelo.
Iam agora passados vinte anos e nem queria pensar no equívoco da sua vida, errada e sem remédio: pedra caída ao mar.
Já nem sabia palavras de dor, a todas já gastara.
Não de breque ou de vitória, guiados pelo Farrapa, que também de há muito com a terra em cima dos olhos, agora, de automóvel, guiado por um sobrinho do Farrapa, ainda frequente se atirava até à Quinta dos Corujões.
Continuasse vivo, ao menos para os filhos, já que só eles aceitavam e queriam para eles vivesse.
Adiante, pronto! Ora não ia falar alto!...
Pois, muitas vezes se deitava ainda agora até aos Corujões.
Talvez que um dia, um domingo o Laurentino Farrapa, se desmandaria no beber, e, aí por meio da viagem, chapou-lhe o carro num barroco. Também, que estrada impossível: antes azinhaga de serra, descarnada pelos enxurros e do tempo dos Sarracenos, que estrada cristã de gente cristã que anda de automóvel!
Chapou-lhe assim o carro, quase à noite, o sobrinho do Farrapa, e de tal modo chapado e atascado que só uma junta de bois o safou. Ora, saindo, foi que viu. Estava ao pé do muro amarelo.
A expressão é errada, mas, de carne e osso ali o tinha, sempre comprido e alto.
Ao pé do muro amarelo?! Sempre existia, então?!
- Quem mora aqui, Laurentino, quem é que mora? - perguntou, fora de si.
O rapaz também pasmava, a olhar todas as bandas, como se igualmente para ele houvesse o mistério de um muro, tanto visível como invisível, tinto de amarelo.
-Eu sei cá, meu patrão! Eu topo que não pode morar ninguém e que nem nós estamos em sítio nenhum, que por aí nos veriam as feiticeiras e, quando tal, andámos foi por esses ares fora! O patrão, desculpe, mas, caminho mais estuporado.Que eu nunca em dias da vida aqui passei.
Disse ao Laurentino, serenando-se, que, a ter percebido que vinha assim como vinha, enturvado, então que teria ele pegado no volante. E agora, agora, com o carro ali enterrado até aos eixos?
-Bonito! Bonita obra!
Tudo era fingimento, porém, não passava de fingimento. O que era, sim, é que ali estava o muro amarelo. Certo, certíssimo de tal muro existir, e tanto que ali estava, muito comprido e alto, evidente e. de carne e osso. E tanto e tão verdadeiro estava, tanto ao de dentro morava alguém, e não andavam por esses ares, conforme o tonto do Laurentino, que do portal e de gasómetro aceso saía um criado, a dizer que a senhora ali o mandava para o que fosse mister. E que, até, a senhora é que vira o automóvel atolar-se, que o vira de cima do muro.
-A senhora? - perguntou. - Mora aqui alguma senhora?!
O criado pareceu achar a pergunta perto de estúpida.
-Mora sempre, ora essa, porque não havia de morar! A senhora D. Mariazinha!
Com isto, já anoitecera de todo, e o leque da acetilene descorava o amarelo do muro, a escurecer para um e outro lado, até ser negro e invisível, como se indefinido.
O Laurentino, pela sua parte, devia levar a bateria perto de gasta, que insistia e acelerava, metia em marcha atrás. E as rodas sem passarem de patinar, de atirar lama contra os guarda-lamas, que nem pedraço em clarabóia.
Afinal o muro ali estava, insistia em pensar. Estava, sim, mas, de ser tarde, agora o que tinha era de teimar que não, como antes havia teimado o contrário. A partir de certo risco, tem as pessoas de negar o que é, têm de afirmar-se o que não é. Têm de atirar-se areia aos olhos.Têm de fazer de cegas.
Fora e de pé, a sombra estendia-se-lhe como a dum gigante, embatia no muro e entranhava-se-lhe no amarelo.
-O carro, Laurentino? - disse, a fugir de pensar: mais que de pensar, de sentir.
-Atoladinho, patrão! Agora, só uma junta de bois!
-Uma junta de bois? - interveio o da luz. - Se faz preciso uma junta de bois, nem ele há coisa mais fácil!
Estava ali o muro amarelo, estava. Ainda mais do que teimara que sim, agora tinha de teimar que não. Tinha agora de violentar-se a pensar que tudo fora imaginação: que nunca ao de cima dum muro amarelo vira uma menina de cabelo apartado a meio.
Rodeando o carro, espreitando os eixos, forcejava por naturalmente fazer o que sem dúvida faria numa estrada sem vivalma, sem um muro ao lado, sem um possível olhar que do alto o veria, ouvindo o rapaz do gasómetro falar doutros automóveis também desguiados por aquela volta da estrada velha, que nunca mais o Governo se importara de compor, também atolados no mesmo sítio. E falar da senhora D. Mariazinha.Sem pressas, pegava nuns assuntos e largava-os, passava a outros, voltava aos primeiros. Pois ali naquela quinta morava uma senhora, morava sempre. Nunca dali saía, uma senhora ainda muito linda e que não queria casar-se, com pretendentes às dúzias. Morava ali sozinha e tocava piano, tinha a paixão das flores: aí umas cem qualidades de roseiras, aí quase tantas de cravos. Tão linda, e sem querer casar! Fossem lá entender as mulheres!
De novo entroncado no caminho dos Corujões, pela noite de breu, parecia-lhe que teria passado o portal do muro amarelo, subido uma rampa, seguido muito pelos seus pés, voluntários e involuntários, até ao sítio do muro donde pendia a roseira brava, e que se lhe deparava lá uma sombra. Deparara-se-lhe, ou cuidá-la-ia: pela violência do sentir a obrigara a que lá existisse. E, então, de sonho ou real, a sombra tinha falado.
Que linda, a sombra, posto que já devesse ir além dos trinta e cinco anos: de cabelo apartado a meio e vestida de preto!
Ah! Que linda! A ouvi-la, sentia-se liberto de quanto fosse, da obrigação de falar, quase liberto de estar vivo. De começo, nem dera por que a sombra lhe falava, de tão manso lhe nascia a voz do silêncio, emendada no ramalhar dalguma folha: voz ainda quase silêncio e já princípio de som: água de levada que, de muito ao longe, mal se ouve até ser bem fala de levada ao ir-se aproximando.
Falara-lhe, a sombra, tão distante, pela dignidade, como falar de imagem, tão perto, de familiar, que mais não falaria mulher ao marido.
Que bem a sombra se lembrava de ele ter ali passado, com o pai e as irmãs, numa vitória de almofadas amarelas.Aí há uns vinte e um anos, exactamente há vinte e um anos.E depois haviam desviado a estrada, cortada aquela curva.Parecia-lhe que nunca mais ele tinha ali passado, que nunca. A certeza de que não.Era uma rapariguinha nesse tempo, e estava de cima de muro. A vitória parada ao pé do muro, por qualquer desarranjo.Parada no mesmo sítio onde parara o automóvel.
Calado junto da sombra, que a seguir se calava, parecia que estarem ali juntos era o insuperável bem.
Logo a sombra lhe pegava na mão:
- Quer ver-me nesse tempo, como eu era nesse tempo?!...
Avançado o portal e pisada a carreira de saibro, vencidas as nove escaleiras de granito desgasto, lutou com a porta emperrada e viu-se por fim nos Corujões.
Que frio de abandono, adentro ali do salão! Frio das cadeiras de palhinha empenadas rente às paredes, do tapete enrolado sob o sofá de polimento búzio, do fogão sem ao menos um toro meio ardido, do bufete onde amarelavam cartões de visita numa bandeja que nem parecia já de prata, mas de chumbo funerário! Que frio ainda mais de cortar o dos retratos pendurados e fugidos à esquadria, como se não a óleo e já a bolor os houvessem pintado! Que salão de fantasmas e de ausências!
Mais que nunca, ainda mais, o engano da sua vida errada se lhe apresentava em sangue, batido por uma luz a par da qual a vulgar luz fôra menos que noite. E não havia remédio, não podia havê-lo, tanto como para a morte o não há.
Assim a lembrar-se da morte, meditou que já de facto era um morto, um morto especial que se via, que se palpava, e a sentir: um tão de todo morto que ia ao ponto de o saber e a quem a morte doía. Ainda há pouco, no entanto, juraria ter passado um portal como ali o dos Corujões, a meio dum muro amarelo, pisado outra parecida carreira de saibro, ter ouvido junto duma roseira brava uma sombra a falar-lhe. E dizia-lhe a sombra, tomando-lhe a mão, se queria revê-la como era na tarde em que, menina de saias curtas, via parar sob o muro uma vitória de almofadas e rodas amarelas, tirada por uma parelha baia e estrelada. A sombra e ele haveriam então entrado numa sala semelhante àquela dos Corujões, só que não a ressumar do abandono, que atapetada e com jarras de flores: uma sala de vivos.
Que linda, a sombra, de cabelo apartado a meio, e vestida de preto, um preto ainda mais carregado que o do piano de meia cauda, aberto e até com uma peça na estante.
Que linda.
Sentada no sofá de palhinha, com rosetas de bronze no respaldo, às velas do par de serpentinas com se fôra uma pintura.
- Quer então ver, sempre quer ainda ver, a rapariguinha dessa tarde?...
E havia sido a rapariguinha antiga, sim, que a sombra tirara dum álbum. Queria ele esse retrato, quereria levá-lo?...
Mais que irmãos, menos que noivos, instintivamente se tratavam de tu. Embolsado o retrato, a ideia de já morto a consentir falasse com pureza, a justificar pudesse falar-lhe dignamente de amor.
Imperscrutável, isso da morte.Diziam alguns que se morria, alguns que se não morria bem, que se tornava, noutro corpo.
Ah, se era assim, mais nada perdido senão tempo, desde que nas próximas vidas de ambos, ela com dezasseis anos e ele com dezoito, de novo se encontrassem. «Maria, pode ser! E não te esqueças de andar sempre de preto.E não te esqueças de apartar o cabelo sempre meio.E manda pintar de amarelo, se não for amarelo, o muro da quinta onde morares.E planta-lhe lá, se lá não houver, uma roseira de toucar.E de tarde vai até ao muro, a ver se eu passo numa vitória e um dos tirantes vem torcido.Maria, para saber que és tu.Maria, para saberes que sou eu.Maria.»
De mãos nas mãos, teriam chorado silenciosos, até ouvirem que já estava o automóvel desempancado.
Meter a mão ao bolso? Ver se lá teria o retrato? Se porventura o esquecera?
Não, mais valia não. Depois, quando tivesse a certeza.E também, agora, pouca ou nenhuma razão de queixa lhe parecia ter da vida: que em breves minutos a teria vivido mais plena e bela do que nunca nenhum outro a vivera.

In VIDA DE CÃO

Novela seleccionada por Manuel Poppe


O DESCOBRIMENTO DA CIDADE

Houve um dia que o ouro das lombadas se fez carne e falou. De braço dado com Unamuno entrei num café. Lá conversavam o Mário Beirão e Francisco Franco, logo Aquilino Ribeiro e Abel Manta. E logo António Duarte, Bernardo Marques, Cabral do Nascimento. José de Lemos, que entrou a saltar, passarinhou de mesa em mesa como pardal descuidoso. Ouvimos italiano, cheio e límpido, que era o de Giulio Neri que na ópera e na véspera trovoara A Serenata de Satan.
Unamuno, surpreso, acenou a Miró que, de gravata esverdeada como um lagarto ao sol, conversava com o Almada e o Eduardo Viana e comigo desdobrado! Cardoso Pinto ria com o Duque de Lafões, com o Cunha Leão e o Orlando Vitorino. O fumo dos cigarros de duas moças de cabelo à pré-rafaelita bailava em pontas. Poesia e romance, volume e cor, escalas cromáticas, tudo se fundia com a fumaceira de Francês e de Lucky Srtike, sempre e sempre mais alterando e enegrecendo os óleos do Clube Nocturno, das banhistas e do barco à vela e seu mar, que no cavalete foi azul, da Sintra pensativa, do Alentejo de Fialho, do moinho e pombas do José Pacheko, Arquitecto por graça de Deus.
E Pascoais surgiu-me aos olhos mágicos. Reapareceram, aos mármores sextavados, Alfredo Cortez, Vitoriano Braga, Mário Eloy, René Bohet e o seu Guarnerius, seus dedos com adesivo da hemofilia final.
Os criados Albino e Fausto, o Magalhães, o Oliveira e o Oliveirinha tratavam os fregueses pelo nome. Servira-nos o João Franco, e, insistindo o Unamuno por pagar, o João ateimou não ser nada, que escritor ou artista estrangeiro que ali entrasse não pagava. À inspiração bizarra do João Franco, toda de sua casa e capricho de momento, observei eu ao Peninsular que esse galego de sangue e português de amor, sem perca do devido e guardado à Galiza Mãe, revelava uma educação havida do convívio, do trato com pessoas de espírito e de coração. E que se, em guerra, uma granada surpreendera aquele café, aí por volta das seis da tarde, o País ficava sem miolos, coração, nervos e alma.
E como se chama este café? quis saber Unamuno. Respondi-lhe que A Brazileira do Chiado, em Lisboa. Falando-me logo de Pascoais, relembrando o Verbo Escuro, Unamuno reentrou-me nas lombadas da estante, lá ficou, de ouro.

Foi, nisto, que Selma Lagerlof, com cara de Avózinha, simples e trajada de negro, me saiu da lenda de Shostta-Berling e enfiámos por um jardim. Os olhares dum menino assentado no carinho vieram da sombra da capota como luminosas luas pretas. Cheirava a qualquer rara e capitosa essência de árvore, possivelmente de oliveira- da-china. Selma, vinda dos gelos, desenroscou do pescoço a boa romântica e extasiou-se ante a criançada que pelos canteiros pulava à corda, arrastava eléctricos de lata e patos de quatro rodas, mirava a Filha de Rei Guardadora de Patos, lustrava, coçava e esburacava calções e sainhas de xadrez na rampa de escorregões, balouceava em trapézios, saltava ao eixo-rebaldeixo, tocava berimbaus e reque-reques, aparava e devolvia bolas e argolas, cabeceava à cabra-cega, irisava bolas de sabão, apertava a barriga de bonecas que respondiam «Mamã!», dava a corda a ursos que dançavam, arlequins que batiam pratos, montava e esporeava burrinhos de papelão entabuado, migava pão aos cisnes e peixes vermelhos, cantava em circulo o giroflé-giroflá, deixava que avoassem do cabelo borboletas de seda branca, azul e cor de rosa, que dava também a chorar se escorregava em musgo ou em areia, que erguia arraial de passarada em eira de trigo. Selma enterneceu-se com a meninada de colo e fralda que em recantos sugava os peitos maternos, chorincava com as raivices do primeiro dente, batia palminhas, agitava guizos, pasmava de pipios e chilreios que saltitavam de galha em raminho.
Antes de se acomodar e tomar as guias do pato-bravo que iria reconduzi-la aos abetos nevados, Selma Lagerlof perguntou-me: - Que jardim é este e em que terra estou?
E eu tornei-lhe que era o Jardim da Estrela, na Cidade de Lisboa.

De sobrecasaca acingida e esparramado plastrão azul, onde o branco de um camafeu imprimia um perfil de Tibério, deu-me, então, o braço Próspero Merimé, que, passando por um «prego» por instantes namorou uma guitarra de embutidos de marfim e madrepérolas, mas só com uma prima a dançar no cavalete.
Metemo-nos num eléctrico, e daí a nada um boi negro bufava do touril e apontava a armação a um cavalo que ladeava e parecia trazer de gualdrapas o carmesim e os oiros dumas abas de casaca furtada a Watteau. O cavaleiro, nervosamente sereno, entrou de o citar e burlar, ou a trote preso ou galopando largo - centauro que se diria de tricórnio empenachado, o vertical de espinhaço de oiro lavrado e bofes brancos, o horizontal de negro, orelha pintada, calçado, betado e estrelado de branco. O boi vai escornar-lhe a barriga, mas não. O centauro furta-se e deixa-lhe um rojão no cachaço.
A charanga trombeta fúrias toureiras, e, a nosso lado, de cravo sangrento no ébano em bandós da cabeça, de meias-luas nas orelhas e pupilas de negro ardente, surte a heroína cigana que se chamou Carmen. O trote do centauro levanta areia, o boi investe-o, o centauro escoa-se-lhe rente e enfeita-o de um ferro palmeiro. Os seios de Carmen lutam com o negro do corpinho achegado. Carmen queima o Centauro com os olhos. Novo ferro curto faz sangrar o carrulo da fera. Mas, agora, o centauro perdeu-se, vai morrer. Entalado contra a barreira. Carmen dá um grito de pavor e de amor, esconde a cara, que não quer ver, mas destapa-a, que também quer ver, salvar com a força do querer o centauro azul e negro. Não! O centauro, não! Não é vazado! O bicho bravo marra é nas tábuas e ganha novo palito para o seu paliteiro.
Próspero Merimé, que talvez mentalmente colha apontamentos para outra novela em que de novo Carmen figure e padeça, pergunta-me o nome do calção e da montada eléctrica. Reservo o nome do calção mas digo que o bicho a seus joelhos, rédea e esporas, é de bronze e se chama Jasmim. Que o montador o raptou a um rei cheio de verdete que há duzentos anos estacava numa praça com arcadas.
Súbito, bateram doze badaladas em sineira de sé românica. Vimo-nos, com Carmen a meio e suspirando, numa adega onde se cantavam amores traídos, toiros e beijos. Depois, só bordões que pareciam comentar tristezas, e outra vez amores e farpas. Ergue-se Carmen da mesa alumiada por cotos de vela e, ao passo que encomendo amêijoas à Bulhão Pato, ela vai-se a um dos tocadores e arrebata-lhe a viola, entra acompanhando a fadista. Sem que eu saiba como, já são quatro da madrugada. Carmen entornou-se com Bucelas e Porto e sai enfriada. Próspero Merimé, também aos ziguezagues, cantarola um fado.
- Mas, afinal, diga-me! - e deu um bordo - como se chama o cavaleiro? E a fadista? E esta cidade onde o céu tem estrelas a dobrar? E eu respondi-lhe que o dos rojões era o João Nuncio, a dos ais tão fundos, a Amália Rodrigues, e que Lisboa a cidade das estrelas.

Da estante saiu Carlos Maurras, de corneta acústica e com Os amantes de Veneza debaixo do braço.
- Ora, meu rapaz, quero que me leves a qualquer cousa bela!
Não hesitei e deparou-se-nos um carrão de couro negro e pregueado a balmázios achumbados. Berlindas a seguir, estofins, coches, Daumonts de porta armoriada, anjos e vitórias de ouro, sóis de ouro de rodados.Repentino, tudo viveu. Do carro tumular espreita e dá ordens um gorro negro sobre uma cara comprida, grande beiço e saliente queixo. Através de cristais encaixilhados de rocalhas floridas, olhavam Raínhas e Reis. Infantas, donas graves, jóias, um arco-iris de sedas. E cabeleiras polvilhadas, lunetas impertinentes.
Postilhões alçam chicotes e estalam-nos em baios, lazões e tordilhos, saem o portão, a relinchos, todos aqueles doirados graciosos e heróicos.
- Estou em Lisboa, não é verdade? - diz-me Carlos Maurras sem que a sua corneta de surdo espere resposta. - Comprendi - continua. Aquele coche fúnebre diz bem com o Filipe de Austria. Vai ali a monarquia sem ordens e a Inquisição. Oiço torturados. Saem labaredas de auto-de-fé desse tronco de augústias e desespero e acusam-me, rapaz, vê tu, de partidário de um regime sem cortes gerais em que fale o Povo!
E agora, invejoso - Nós, lá em França, também assim tivemos coches.A Revolução escavacou-os e queimou-os.
Ao meu - «Boa tarde, Mestre!» Carlos Maurras ofereceu-me, rabiscando lá um autógrafo, Os Amantes de Veneza, cofiou a pêra e tornou à lombada do Inquérito da Monarquia.

Verharen sorriu-me ao saltar da estante para o tapete, surpreendeu-se ao ver que nela estava de companhia com Gauthier e Maureas, que toda era de poesia em francês.
Dali, achámo-nos à porta de um mausoléu, e eu falei para dentro. Logo, como já sucedeu, veio do escuro uma observação: - «Sê natural, meu amigo, sê natural» - E um corpo de fato preto e cravo na lapela empurrou a grade. E, não para mim, para Verharen, a quem estendeu a mão, disse-lhe todo o sentimentalismo dum ocidental onde uma cidade vive com os seus bens e males, suas libras de cavalinho e seus patacos falsos, seus sóis no zénite e suas névoas, seus risos e suas lágrimas, seu estreloiçar de pratos em hotéis de luxo e suas costureiras tristes e éticas. Esquecerei o tom da voz do poeta, enérgico ainda após quase um século de chumbo de caixão?

				Nas nossas ruas, ao anoitecer,
				Há tal soturnidade, há tal melancolia,
				Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia,
				Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O poeta ficou, no fim, de voz embargada.
Verharen trouxe-lhe algumas memórias, falou de Gauthier, riu de carraspanas de absinto que viu a Beaudelaire e a Rimbaud, memorou uma estância de Maureas, falou de nomes luminosos e apagados e disse que lia com assombro a um poeta já pessoalmente conhecido no Olimpo aonde sobem todos os poetas.
Aquele com quem falávamos amparou o peito esvaziado e pediu licença para tornar a estender-se.
Mas, com os seus versos de roteiro, junto às minhas recordações, por um dia vadiei com o Belga. E viu o tronco varonil das varinas, que recorda pilastras, os filhos, futuros náufragos, embalados à cabeça. E entranhámo-nos por um bairro antigo, e eu dei-me a tirar fotografias. Apareceu-me um sol, a mais radiosa moça de lá, que me disse chamar-se Rosina. Verharen assobiou uma das áreas do Barbeiro, o que a espantou, e ofereceu-lhe uma gardénia que trazia ao peito. Verhagen foi a urbanidade, a suavidade, daquelas gentes do bairro. Às perguntas de Verhagen respondi que o poeta de Lisboa era Cesário Verde e o bairro das varinas a medieva Alfama.

Chuvisco de Perséides em Agosto desluarado, pestanejaram então da estante vivos e mortos.
E o La Varende, a quem não releva a Academia Francesa reencarne todos os La Rochejaqueleins, saiu-me pela janela e voltou, ele que em Chamblac tem um museu de modelos navais, com o desenho de uma canoa da picada que subia o Tejo.

E o polaco inglês Joseph Conrad, o capitão de navios e romanceador do mar, folheou o Cesário e recolheu à estante, lidos aqueles versos onde surgem mouros e baixeis flutuam, heróis batalham e Camões disputa à boca do Cambodja o rolo dos Lusíadas, onde no Tejo singram naus de soberbia.

E jurando carnes de mulher num rasto dum vapor que abicava ao Cais das Colunas, José Maria de Herédia recitou-me o soneto que fenece com o mar choroso das sereias ante o Homem indiferente ao Sonho.

E o Ésquilo milenário, que uma rajada me levara pela janela há muitos anos, apareceu de volta a contar-me que o seu melhor momento lisboeta fôra o da representação no Teatro Nacional da Castro do Dr. António Ferreira, perguntou-me se este letrado teria sangue helénico, se viria dalgum marujo que houvesse ajudado Ulisses à fundação da urbe.

De meios corpos de bronze outros falaram.
Maurício Ravel deu à cabeça que sim, que muito bem, que sempre bis à regência de Freitas Branco da sua música: que tal e qual a sua batuta ondearia a Valsa, essência do ritmo que sobreviverá.

João Sebastião Bach louvou a Polyfonia de Sampayo Ribeiro, ouvida nas ruínas do Carmo por noite de luar e fantasmas da Idade Média.

Saí, então, e, do Castelo de São Jorge, olhei a Lisboa nocturna dos biliões de pupilas de gato, do rio afogado de reflexos animados, da cidade que o firmamento sementou de luz.

In Memorial de Ariel

Capítulo seleccionado por Maria Antónia de Figueiredo


POSFÁCIO Á TOCA DO LOBO

- Pai, vem da morte e vamos às perdizes, vejo a aurora, que tinge do seu rajo de dente a dente a serra de Soajo. - Ciprestes, desatai-o das raízes!
- Este inverno as perdizes são em barda: criaram-se as ninhadas sem granizo. Vamos chumbar dos perdigões o guizo, anda matar securas da espingarda.
A tua Holland.O animal de presa. O azul brunido.Velha e como nova. Bem a merecias a alegrar-te a cova. Penou-te de saudades, com certeza. Aqui a tens. Porque era ver-te, olhá-la, sequer um dia que não fosse vê-la. Olha deluz-se a derradeira estrela, já folga a luz no lustre aqui da sala. Trinta anos depois, caçar contigo, e sempre conversando e á chalaça. Mais que perdizes, hoje, melhor caça é matar fomes do caçar antigo. Ver-te sorrir à escapatória sonsa da velha que não viu «perdiz nem chasco!» E o Lord a anunciá-la sob o fasco, e tu lambendo o cigarrinho de onça. Ó pai, se não vivias há trinta anos, também há trinta eu não vivia, pai! O sol reacendido, vem e vai divagando no aço inglês dos canos. Ali, agora, o nosso amigo Lord, que tornou da raiz da laranjeira. Dá aos queixos, marrado, na tojeira. Vê cinco da bandada. Cinco morde. O amigo espera. Vê. Petrificou-se. Esperam as perdizes que medusa. Vai lá tu só. Desacolcheta a blusa. Secundaste a chumbada! Pai, que fouce! Como na morte nem perdeste a mão de pôr a Holland à cara e desfechar! Na mesma o nosso Lord o seu marrar, e a vista, o faro, o tento e a paixão! Tens sede.Ouço a chamar-nos uma fonte. Vamos beber de borco, à antiga moda. Sentemo-nos na relva, amando em roda, ouvindo as idas falas do horizonte. À moda muito nossa, de poetas. Eu a falar de bulhas, bofetões, a perdigões contando os esporões e, sob a cauda, as régias pintas pretas. À nossa moda antiga, e hoje a mesma. Traz-nos o vento lemes de penisco. Desce a beber na fonte, agora, um pisco, assustando os pauzinhos duma lesma. E tu a perguntares dos meus estudos. Que tal o meu Francês, o meu Latim? «Ó pai, quanto ao Latim, assim-assim.» Ah! pai, que somos dois soluços mudos! Lá vejo a nossa casa. Estás a vê-la? O nosso tanque, a fonte, o laranjal? E a Maria Velha, no quintal, com um cesto de roupa e a estendê-la? Ah! Meu pai, que até vejo pelos muros! Lá te alcanço, da mesa à cabeceira. Também deitando achas à lareira (e todos nós, da vida tão seguros.) A bica ali da fonte era de vento, as perdizes, sequer embalsamadas, o Lord, sombra de asas afogadas, falcão de frio e fome, o pensamento. Ah! pai, que me repassam os nordestes, que vejo além ferrugens de mil cruzes: de dia, embora, palpitando luzes e a palma de verdete dos ciprestes.

in POESIA II

Poesia seleccionada por Vasco Graça Moura

E os fantasmas não cessam de chamar. Chamam do mundo além da labareda, uns que trajam burel e outros seda. Fantasmas de perfil e fronte ascética, de rosário na mão, sereno olhar, ao Inefável já a desfrutar. E, arquejante, a alma, nas profundas, empedernida, ensimesmada, hermética, a esgrimir inútil dialéctica. Fantasmas tão amigos.De velhinhas inocentes, outrora tão jocundas, hoje pasmadas, tristes, gemebundas. Que tristes que me fitam, que varadas! Quanto lhes doem as desgraças minhas! Que longínquas.e minhas tão vizinhas. A cuidarem que choro, abrem o lenço, para nele ensoparem as bagadas: Lenço de linho e beiras arrendadas. Mas eu arquejo na tortura agónica. Mas só enxofre aspiro e condenso. Mas, de choro perdido, eu só penso. E, sobre a minha face contraída ante a visão absurda e babilónica, sinto o lenço de lenço da Verónica. São parentas de sangue ou de sentir. As tias velhas, a criada querida, chamando-me ao nascer da Outra Vida. Elas, meus pais, insistem, não arredam do seu menino querido, a expedir, proibido ao passado e ao porvir. O fantasma de mim, quando menino, melancólico, já, em quem levedam prenúncios de tristeza que o enredam. O fantasma de mim, adolescente, que, embora suspeitoso do destino, cantou à Vida um fervoroso hino. Desse que foi endiabrado ao soco, desse que, mal que a via, repelente, morta sempre deixou uma serpente. O fantasma do herói que me tornei, que todo o Belo sempre achava pouco, a quem volvia a injustiça louco. O fantasma do terno, do amoroso, do que do Amor só quis viver à Lei: Amor ao Bem, à sua Dama, ao Rei. O fantasma da moça de olhos pretos, perfil de lady, colo donairoso, a quem um dia dei a mão de esposo. O fantasma dos filhos, em pequenos, sempre de azougue e de dizeres discretos. E o fantasma, já, até, dos netos. O fantasma da Casa onde cuidei na velhice passar tempos serenos, a ler Modernos, a reler Helenos. A Casa da qual vejo cada canto, da qual cada recanto lembrarei, que, sem amor sentir, sempre amarei. O fantasma das minhas espingardas, das quais tanto gostava, tanto e tanto, e às quais, na mesma, se recusa o pranto. O fantasma do pisco e o do chasco tão buliçoso, de peninhas pardas, que pipiavam até horas tardas. O fantasma dos santos da capela, onde havia uma cópia do Grão-Vasco. O fantasma das colchas de Damasco. O dos sonhos e doces de Natal, da xila com polvilhos de canela, o das velas que ardiam na arandela. O fantasma dos livros de convento com douradas lombadas de missal, capitulares de mínio ritual. O fantasma das rosas do jardim, já brancas, já vermelhas de espavento, que balouçava, airosamente, o vento. O dos goivos, das sécias e das zínias, das ervilhas-de-cheiro, do jasmim, do Bourbónico lis, do laurestim. O das tulipas, dálias e verbenas, das quaresmas de Abril e veludínias, o da branda ametista das glicínias. O fantasma das fúcsias e violetas, o das castas, nevadas e serenas, de São José místicas açucenas. O do branco e do róseo das cravinas, que picam o nariz, também cravetas, cravelinas e ainda cravinetas. O fantasma dos velhos perdigueiros, que amostravam, quedando as caudas finas, codornizes na relva das campinas. Ah! Deus do Céu! Ah! meu senhor do Céu! Fantasma, também Tu, e dos primeiros! Não te ver nos instantes derradeiros. Ah! fantasmas de quanto já foi meu!

in POESIA I

Poesia seleccionada por Maria Antónia de Figueiredo


Sou um archote inútil de Poesia. Queimo-me, puro fogo, em fogo puro. Orfeu no Inferno, sou o palinuro Duma nau que aberrada estrela guia. E, cruel sempre, esta veloz porfia de acender versos no luar escuro. Obsesso da Beleza, o mais abjuro, fiel lhe sou, matando a Alegria. Não paro. Por um ano, por vinte anos, hei-de parir sonetos desumanos em que me firo como em lanças más. Nisto, até nisto, e a viver de horror, sempre me hei-de entregar. Hóstia de Amor, hei-de morrer poeta e rapaz.

in POESIA I
POÇO DA NOITE

Soneto seleccionado por António Cândido Franco


Ó Portuguesa Língua, adeus te digo. Ardes em chama de oiro em minha dor. Anos cincoenta eu te dei de amor: tão grande amor hei-de levar comigo. Quantos segredos teus que não consigo já com viveza dar, com luz e cor! Morreu, morre por ti o escritor que sobre todos era teu amigo. Ouvia-me o Aquilino, com aceite, recolhendo mentais apontamentos. Aí tens! Mais te sabia que ninguém. Abrindo o peito, o meu sangue dei-te. Teus hão-de sempre ser meus pensamentos. Meu lancinante adeus te digo, Mãe!

in POESIA II
MOTO CONTÍNUO

Soneto seleccionado por António Cândido Franco


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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